sábado, 20 de setembro de 2014


Cartografias da Memória

A exposição traz a produção de duas artistas que investigam poeticamente a complexidade da memória. Cada uma se ocupa de um aspecto distinto: o progressivo apagamento, no caso de Neila Ribeiro e o acúmulo e abarrotamento, na obra de Ruth Sousa. Assim, apresentam uma complexa relação entre a memória, o esquecimento e a imaginação. Todavia, bem mais que exibir um objeto pronto e conclusivo, como um mapa para o cartógrafo, as artistas apresentam processos que compreendem a memória de forma aberta e plástica.
Neila Ribeiro parte de álbuns antigos e fotografias de família, guarda e conserva as lembranças contidas nesses objetos, mas assume a sua inevitável perda.  Confronta as lembranças ao seu próprio desaparecimento, cada camada que se acumula sobre a imagem lhe confere menos integridade, mais invisibilidade. Suas aquarelas também versam sobre a memória, nelas se apresentam a substituição das antigas imagens por manchas que se colocam entre o que se lembrava e o que se mantem como projeção. Como uma arqueóloga do tempo, Neila penetra as camadas em palimpsesto da memória, sabendo que a cada segundo elas são menos lembranças e mais esquecimento.      
 Ruth Sousa parte de antigas fotografias de sua infância. A artista dedica-se a procedimentos que visam reconstruir a cena com a exatidão psicológica necessária: o vestido foi feito com o mesmo tecido da cena original, na mesma costureira. O lapso de mais de vinte anos entre a primeira fotografia e a segunda se reverte em transformação ficcional. Ela não trabalha com o que lembra, mas com a criação de novas lembranças, tratam-se de constructos da memória. A imagem e o tempo deixam de ser contínuos. O espaço de uma lembrança é ocupado por outra, ficcional, entretanto, com igual importância.  A individualidade é violada, mas não há separação. O encontro se reverte em conflito. Ao se olhar para este processo é comum questionar o embate entre sonho e vigília, entre realidade e fantasia.
O que aproxima trabalhos tão díspares é a relação poética que travam com a memória. Ambas entendem o tempo por seus aspectos plásticos e maleáveis, sempre em transformação. A fotografia aparece como a materialização desse processo: não apenas registra o instante, mas converte-o cada instante em um problema insolúvel. Nunca lembramos com exatidão: por vezes esquecemos, por vezes inventamos.